SESC Santo André: fazer rádio para se ouvir

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A proposta deste encontro não tinha nada de diferente: fazer rádio, ao vivo, com tema livre, em grupinhos, contando com o mediador na hora da produção e da apresentação, tudo isso pra tentar ficar mais tranquilo e conversar mais no programa.

Em princípio, tudo igual. Mas essa tarefa foi realizada por pessoas, pessoas essas que sentem, pensam, falam, gostam, desgostam… Assim,  por mais que a tarefa seja a mesma, os encontros nunca são iguais. É ao realizar essa tarefa que as pessoas se revelam, que a convivência acontece, que os conflitos vem à tona.

Começamos o dia com os vinte participantes (esse numero no quinto encontro, revela que há gosto e interesse por todos eles, afinal, se não fosse o caso não teriam voltado, a atividade não é obrigatória, mas de auto convocação). Pra ficar claro que aquele é um espaço de exercício de convivência, começamos a conversa nos localizando: Santo André, SESC, sala de múltiplo uso, 18h30, oficina Rádio Ambiente 21. As pessoas que estão lá fora, as relações que você estabelece lá fora, as coisas ruins que ouvimos e fazemos lá fora, que fiquem por lá. Neste espaço, neste tempo vamos procurar conviver de uma maneira diferente, sem reproduzir as coisas ruins que fazem conosco, que fazemos com as pessoas, que vemos acontecer seja em casa, na escola, no bairro… Neste espaço e tempo, então, não cabe competição, agressão, xingamento, coisas que não são ‘gostosas’, que não fazem bem.

Esse foi nosso ponto de partida. Daí, passamos para os programas do encontro anterior, conversamos sobre eles, levantamos pontos bacanas e pontos não tão legais. A fim de fazer um programa ainda mais redondinho, o ‘grupão’ se dividiu em três ‘grupinhos’, escolhidos por nós mediadores, e foram produzir. A divisão dos grupos tem por objetivo mistura-los, de forma que convivam com quem não estão acostumados, com quem não tem o mesmo jeito que eles, isso porque quanto mais coisas novas e pessoas novas conhecemos mais se ampliam nossos horizontes.

Ao retornarem para a apresentação do programa percebi o clima inquieto. Fizemos os combinados desse momento como de costume: vamos entrar no ar, celulares desligados, risadas contidas, cadeiras paradas, concentração no que está sendo veiculado. A apresentação começou assim, mas aos poucos, o burburinho foi aumentando entre os “ouvintes”, o clima não era de concentração, ouvimos piadinhas tanto de quem ouvia os programas quanto de quem fazia os programas, de repente uma discussão entre duas meninas, xingamento, ‘vou te pegar na porrada’, outros dois meninos só vendo de fora, botando lenha na fogueira. Tudo isso transpareceu nos programas.

Encerrei a transmissão sem conseguir disfarçar o visível descontentamento, entre comentários e conversas desconcentradas e descuidadas em um momento em que a transmissão ainda estava no ar. Não deu outra. Assim que terminei o texto, a rádio saiu do ar e sentei no círculo de cadeiras esperando que todos se acalmassem, ouvi um ‘ué, hoje não teve palmas?’. Aos poucos foram percebendo a cara dos mediadores de braveza mesmo, e foram silenciando. E aí a conversa foi séria e firme.

A Rádio Cala-boca já morreu tem um compromisso com o direito à comunicação, ou seja, é um espaço onde as pessoas tem a possibilidade de dizer o que sentem e pensam sobre o mundo e isso não significa sair dizendo qualquer coisa, mas primeiro fazer o exercício de pensar sobre o mundo pra então entender e elaborar o que tem a dizer, por isso é que a gente faz a produção do programa antes, por isso faz roteiro. Estamos assumindo uma responsabilidade ao entrar no ar, é nossa voz ali, e é a Rádio Cala-boca já morreu no ar.  E o modo como nos tratamos transparece nos programas, na nossa fala, na concentração. Um clima tranquilo ou agressivo gera programas diferentes. Nós achamos que se xingar e se ameaçar não é uma coisa legal e combinamos desde o início que coisas legais não cabem neste espaço, tão pouco no espaço da Rádio, por isso, quem continua com esse comportamento ainda não entendeu a seriedade do que estamos fazendo aqui e precisa repensar se quer continuar fazendo programa, porque se quiser mesmo, é pra fazer inteiro, com seriedade, que não significa ser sisudo, mas ter comprometimento.

A fala silenciou o grupo. E a observação nesse momento foi de “Poxa, que coisa! Quando a gente é carinhoso e respeitoso vocês fazem barulho e bagunça e não ouvem, mas quando a gente fala firme e grosso, chamando a atenção, ficam quietos! Vocês perceberam isso?”

Retomamos ainda os pontos bacanas do dia, porque vimos coisas bem legais. O Daniel, por exemplo, inaugurou a função de fotógrafo: as fotos de registro do 5o encontro que você pode ver aqui no site foram tiradas por ele. Outro ponto alto foi o Brian que teve uma participação muito séria e inteira no programa hoje, entendeu o que é fazer programa de rádio e foi elogiado por isso pelo pessoal do seu grupo.

Fazer rádio, nesse perspectiva do Projeto Rádio Ambiente 21, é isso: falar de convivência, rever-se, repensar-se.

Ouça o programa

 

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