Quinze para a RIO+20

 O Projeto Rádio Ambiente 21 prevê três ações em sua realização: o exercício de produção coletiva de rádio por seus 80 participantes jovens; a organização de um evento sobre Juventude e Meio Ambiente por esses mesmos 80 participantes; e a participação de 12 adolescentes e jovens do projeto na RIO+20, evento internacional sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável. Vou falar sobre essa última.

A proposta é ótima. Possibilitar a ida de adolescentes que muitas vezes nunca nem saíram de sua cidade que dirá para um outro estado para um evento que reúne pessoas do mundo todo é bastante rico para o projeto e, principalmente, para cada um dos adolescentes viajantes. A questão com a qual nos deparamos, no entanto, não tem que ver com a natureza e objetivos da viagem, mas com um passo anterior: a seleção dos 12 jovens dentre os quase 80 participantes que teriam o privilégio e responsabilidade de dar conta dessa empreitada.

Como fazer isso? Votação, seleção feita pelos mediadores, sorteio? Não são opções viáveis do nosso ponto de vista, isso porque simplificam e planificam um processo que pode ser riquíssimo para a convivência e auto conhecimento do grupo. Por isso, nossa opção foi por fazer essa escolha junto dos adolescentes.

Seriam três escolhidos em cada uma das quatro unidades do SESC envolvidas com o projeto, num universo de 7 a 20 participantes por unidade. Tendo em vista as tarefas que a equipe dos 12 teriam que realizar durante a estadia no Rio de Janeiro (cobertura do evento em foto e áudio, dar e fazer entrevistas e ir ao ar em dois programas de uma hora na Rádio Cúpula dos Povos) pensamos em critérios que definissem o perfil que precisamos nas pessoas que farão parte dessa atividade. Desenvoltura, conhecimento e envolvimento no projeto, saber explicar o que é o projeto com tranquilidade, ouvir os programas das outras unidades, se dar bem na convivência com outras pessoas, não ficar de cara fechada por qualquer coisa. Por conta das características do evento, qualquer perfil que fugisse desses critérios estaria mais vulnerável a sofrer de timidez durante uma entrevista organizada de ultima hora, de ansiedade por não dar conta de responder às perguntas de um repórter ou a passar mal longe dos pais numa cidade diferente.

A metodologia é aparentemente simples: apresentamos a RIO+20 aos grupos; apresentamos qual o nosso papel por lá, as responsabilidades que teríamos, os desafios; em seguida, apresentamos os critérios que definem não os melhores, mas aqueles que teriam um perfil que ficaria mais tranquilo diante do que estava previsto. Por fim, vinha a pergunta: tendo tudo isso em vista, quem acha que tem condição de assumir a responsabilidade de participar desse evento?

Simples, não? O problema foi que em todas as unidades mais da metade das pessoas segurava a mão no ar depois dessa pergunta. E aí o caminho foi a conversa franca, entender que esse era o momento de a gente exercitar conversar sobre pontos fortes e fracos meus e dos outros sem alfinetar as pessoas, mas se atendo às características dela.

E aí é que veio a belezura. Testemunhamos em cada uma das quatro unidades momentos de silêncio e conversa concentrada num grupo de muitos adolescentes de um jeito que muitos adultos não da conta de fazer igual. Ficou clara a importância do momento e todos e todas se envolveram no processo. Ouvimos falas como “eu moro em abrigo e dependo de um juíz me deixar viajar, então prefiro não ir porque não quero que a gente perca uma vaga”, ou “eu queria ir, mas acho que tava querendo ir pro Rio de janeiro, não pra RIO+20”, além de muito cuidado e respeito para dizer para o outro “olha, não é nada pessoal, não tenho nada contra você, mas é que eu acho que sua voz é baixa, você fala muito baixo nos programas”.

Enfim, momentos preciosos. Ao final de cada conversa, nenhum dos grupos deu conta de, sozinhos, chegar a três nomes, mas reduziram o numero de mãos levantadas e conseguiram expôr suas preocupações e tranquilidades. Com esse quadro colocado nós, mediadores, nos sentimos à vontade para também fazer nossas ponderações vendo a dinâmica do grupo de fora e aí então chegamos aos três nomes.

O significado de ir para o Rio de Janeiro para os 12 adolescentes e jovens escolhidos com certeza é muito mais forte do que se tivéssemos optado por um processo de votação. Eles compreenderam que muitos outros gostariam e poderiam estar no seu lugar e que sua ida é uma responsabilidade a ser valorizada. Além disso, os grupos se fortaleceram, aprenderam a lidar com suas vaidades, seus interesses, sua raiva…

Foi um passo bastante bonito e marcante para cada grupo dentro desse projeto.

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